Mês: janeiro 2009

Meu lado Maitê.

Estou lendo a Maitê novamente. Eu gosto de como mulheres como ela, Lya Luft e Tatiane Bernardi descrevem os sentimentos mais ínfimos. Decidi voltar a escrever com todo o gosto e sem a dor de publicá-los. E foi ontem à noite antes de parecer estúpida, bêbada e de vestido curto na boate que eu revivi a minha paixão mais gostosa. Do lado de dentro existem um turbilhão de mim que não consegue se expressar ao não ser pelo teclado. Tem um mundo inteiro dentro de mim que ninguém conhece. São pessoas, cheiros, gostos e fotos que eu não consigo expressar. São infinitamente contrastantes as minhas facetas, mas não consigo anunciá-las. Morro um pouquinho dentro de mim quando a boca é mais audaz que a minha vontade de falar. Estou solta para dedilhar o que me dá prazer, sem pudores e mais egoísta do que nunca. Já nem importa quantos dias vou ter que passar catando as peças que foram espalhadas no (ventila)dor. Decidi não reprimir. A partir de hoje, nem coisa, nem gente, vai fazer minha imaginação ficar guardar dentro de uma caixa. E isso vale para quem ainda vem aqui achando que um dia vai mudar de lado da tela, não mais, nunca mais. Eu ando meio revoltada demais com o mundo, com os relacionamentos, com os adultos, com os desvios, comigo mesma e minha mania de colocar flores onde não tem, então nem me sinto à vontade ainda para falar qualquer coisa boa demais desse ano ou qualquer coisa ruim demais do ano passado. O ano passado é mesmo ano passado, uma vida passada, textos passados, um livro inteiro passado, eu mesma do passado e o meu fabuloso racional cuidou de botar a sujeira toda debaixo do tapete da casa também passada. Então, vou voltar a escrever por esses dias, das pequenas felicidades como segurar a mão no cinema e beijar até a boca dobrar de tamanho. As pequenas coisas que o hábito torna comum, o prazer comum, o dia comum, o elogio comum, a rotina comum, a desgraça comum, o tédio comum e a conseqüente infidelidade incomum, pelo menos para minha pessoa, bem comum. Aquela que transforma o momento mais sublime e cúmplice em esporte. Não era para ter virado esporte, mas a maioria faz disso os quantos por cento, mesmo? Noventa e nove por cento, que eu tive a infelicidade de falar um dia, só para causar uma boa impressão. Sou mesmo muito boba. Driblo a dor, burlo meu pesar, engano meu chão, não sinto um pouquinho sequer de arrependimento de nada, nada, nem as dores, nem o leve desprezo, nem a consciência, nada. Minha cabecinha é cheia de manias e essa é só mais uma: escrever para espantar os maus espíritos, para emprenhar todas as dores e parí-las ao mundo. Num segundo me sinto livre, desapego. Desapego, desapego, desapego, a política mais praticada do lado de cá por vários dias até que eu esteja tão livre que me embrulhe num pacote e me dê de presente para outra pessoa, que pode ser a pessoa de verdade ou alguém que me decepcione novamente. Então virão mais textos doces e salgados, nessa mesma ordem, mas eu desejo não parar tão cedo. Por que assisto tantos filmes que sou capaz de me apaixonar perdidamente por quem nem sabe o meu nome, a minha existência, os meus valores e posso ser irritantemente carinhosa, amável e aparentemente apaixonada por que não me interessa nem um pouco. Então, para fugir da minha estúpida lógica, escrevo, assim me sinto mais eu.

Escrever é prática escondida, solitária. Entre o ócio e a preguiça rumino idéias e invento casos que não me teriam ocorrido se o teclado não me puxasse os dedos. Sento em frente à tela e vou teclando meio sem rumo, colocando o que me vem à cabeça … Tem a frase que já não cabe, mas, como gosto, não quero abrir mão. Dá-se aquele raciocínio gordo. Apago. Para ficar no papel eternizado é preciso depurar o pensamento até que ele pareça ter nascido ali – quando isso acontece o prazer é sublime. Quando não acontece, percebo e volto e volto ali e volto ali… Há ocasiões em que a solução só se apresenta depois da frase publicada, leite derramado, e ai que tormenta! (…) Descobri que existem histórias inesgotáveis brotando dentro de mim. Carrego-as para onde quiser, posso andar feito cigana sem pouso, por que cada esquina do mundo a fonte só faz aumentar. A terra onde nascem minhas crias e frutos eu levo dentro, e o adubo que a fertiliza é toda coisa que existem em volta.”

Maitê Proença em Uma vida inventada.