Mês: abril 2009

Eu trouxe meu Carnaval para casa – Parte 1.

Eu trouxe o Carnaval para os outros trezentos e sessenta e um dias desse ano. Eu não me contenho em falar só de abril, daí eu volto para março. Nem me contenho de falar só de março aí volto para o Carnaval, mas aí eu tenho que voltar para janeiro e um janeiro vai puxar o outro e eu vou falar de quantos anos mesmo?! E de “quantos anos mesmo” eu volto para bem antes, bem antes de mim, de ser isso aqui, de pelo menos querer ser isso aqui, um mim que era outro e que eu nem lembrava. A primeira vez que eu te vi foi na escola. Eu estava na sétima e você no segundo ano, mas a gente dividia o mesmo tamanho e a mesma cor de cabelo. Eu te vi, mas não tanto e nunca mais. Quase dez anos depois você me aparece grande e eu te vi tanto, tanto que peguei você para mim por alguns dias, numa festa, noutra festa, no cinema, na Internet que ainda era pequena e meses mais tarde fui longe e de carro só para te ver de novo. E eu te vi, mas você, não tanto e eu escrevi um texto que eu acabei de achar, falando de como você era príncipe e como eu nunca tinha encontrado alguém tão príncipe antes. Aí nós sumimos. Separados. Dias, meses, anos, muitos anos. E eu guardei as lembranças de você na mesma caixinha que eu guardei o Closer, a música Rag Doll, do Maroon Five, a minha mania de chamar a tua irmã de cunhada e o teu sorriso de príncipe, numa caixa com o número da minha sorte e da camisa do seu time de futebol. Aí depois veio você aqui quando eu já nem esperava. Aí você me viu e tanto e eu tanto te vi que doeu na alma não te beijar com meu vestido branco. Depois sonhei com você e muitas taças de champagne e você foi embora, de novo. E eu sumi de novo e você sumiu de novo e tão de novo você ainda morava longe e a tua boca estava tão longe que eu sosseguei de sonhar com você por uns meses. Aí eu fui embora no dia trinta e um do ano passado. Não fui embora de você, eu já tinha ido. Fui embora de mala, cabeça e cuia, da vida que se fez nesses anos todos enquanto eu e você insistíamos em trapacear o nosso fidedigno destino. E eu te vi em janeiro, num dia, te vi tanto, te quis tanto, mas era tanto que não podia ser pela metade, rápido ou com reservas. Aí eu fui embora daquele lugar incomum com a sensação de ter que completar um texto quando ainda estava na primeira frase. Aí eu trouxe você para janeiro de novo e a frase que faltava virou promessas a cumprir e uma passagem para o paraíso e com bônus de uma vida toda nova. Eu fui de ônibus e nos primeiros trezentos quilômetros desisti por um segundo, mas não voltei. O medo de frustrar as minhas expectativas em relação a você que era tão antigo, mas tão novo, me causou terríveis dores físicas, mas eu não voltei e dezessete horas depois e todas as horas seguintes, inclusive essa agora. Você só suplantou todas aquelas setecentas e noventa e quatro expectativas. Aí eu escrevi outro texto para registrar a nova eu. Aí eu trouxe você e não cabia mais na caixinha do Closer, junto com as outras coisas. Você já não cabia mais dentro de um só peito meu e eu pedi a sua ajuda para abrigar você e caber em mim. E você veio. E a minha vida inteira virou Carnaval, inclusive em março e abril. Por que eu não imaginei que em março você queria o nosso mais sincero compromisso e você veio pessoalmente me levar dentro de contêineres por que a essa altura eu não cabia mais nem no peito, nem em mim, nem a minha casa, nem no bairro, nem nessa cidade e eu fui toda com você em março, embora o plano físico tenha ido trabalhar todos os dias no meu lugar. Aí eu tive a certeza que de você encontrou o único exemplar raríssimo do Manual de Mim.

De quando eu fecho o olhos.

Eu fecho os olhos e imagino o nosso cenário. Aquele cenário, naquele feriado onde todo mundo pode tudo. Eu fecho os olhos e me imagino lá. Eu fecho os olhos e imagino como tudo pôde ser tão diferente. O sol forte entrando por debaixo da porta e por um pedaço da janela que ninguém pôde cobrir. Eu fecho os olhos e me imagino lá acordando com você sem que isso significasse uma noite quente no dia anterior. O máximo de intimidade sem intimidade alguma, a ordem inversa das coisas, o horário trocado. Eu imagino quantos chicletes eu gastei esse ano quando a gente saiu, inclusive quando eu apareci no seu prédio de surpresa e te beijei enquanto você ouvia Dear Prudence no meu Ipod. Tantos chicletes para que no beijo mais demorado da minha vida eu não tivesse ainda levantado para escovar os dentes. Eu imagino a minha surpresa em sentir a química gritando no volume máximo para os vizinhos dos mil prédios em volta do seu nessa cidade que eu agora amo. Eu fecho os meus olhinhos e imagino o espasmo que o ar condicionado dá e o meu susto ao descobrir a faxineira logo cedo me lembrando que existem mais de duas pessoas no mundo a partir daquele momento. Eu fecho os olhos e cheiro o teu perfume que ficou na ponta do meu nariz pelas dezessete horas seguintes. Eu fecho os olhos e vejo você trazendo o café com leite, tirando a camisa, vestindo seu melhor sorriso e a minha maior expectativa. Eu fecho os olhos e as horas voam. Eu imagino você do outro lado da lancha, com o vento desarrumando o teu cabelo e conversando sem perceber que naquele bendito momento, eu já estava me apaixonando por você. Eu fecho os olhos e lembro que você era o mais acessível da sua sala de meninos grandes quando eu ainda era uma pirralha. Eu fecho os olhos e te reencontro anos mais tarde, mais acessível ainda e a gente indo para o cinema assistir Closer pela primeira vez. E a gente assistiu de Closer ao O Curioso Caso de Benjamim Button e todos os filmes entre eles dois acabaram de ser suprimidos pela minha vontade de nem colecionar lembranças só para sentir a tua mãozinha encostando na minha perna no cinema. Eu fecho os olhos e espero tua boca. Eu fecho os olhos e te espero aqui para jogar cartas como eu já nem lembrava que sabia jogar alguma coisa, nem cartas, nem volley. Você tem o gosto da minha melhor adolescência, tem gosto de novidade, de esperança, de amendoim salgado daquela festa. Eu fecho os olhos e danço um samba rock com você. Depois dirijo o seu carro pela primeira vez, na chuva, de sutien cor de rosa e a maquiagem escorrendo no pescoço. Eu fecho os olhos e você divide um pacote de bolacha e um chocolate na minha boca. Eu tomo banho de chuva, na frente do mar de Olinda, beijo, chuva, você e as mãos tremendo de frio, mas o coração quase para explodir de tão quente. Eu fecho os olhos e te conheço há anos, mas você é uma surpresa a cada dia. Eu fecho os olhos e quero você para mim. Eu fecho os meus incansáveis olhos e posso ser quem eu quiser com você. Por que você não me viu quando eu era modelo, nem me leu quando eu escrevia frequentemente, nem esperou que eu saísse de casa arrumada e com dois cds de uma banda nova, nem achou que as minhas amigas só falavam besteira, você só sentiu a nossa química e pronto! Eu fecho os olhos e sou feliz só de te imaginar de volta, aqui, para mim.