Nem eu, nem o rio.

Existe vida após o Amor. Existe Amor após Amor e eu bem que usaria outra palavra para diferenciar sentimentos tão diferentes que podem ser usados com o mesmo nome, sempre. O mesmo “Eu te Amo” que eu escrevi para o menino da escola e nem assinei por que dizer aquilo era só para me libertar de guardar tamanha frase sozinha, não é de longe o mesmo “Eu te Amo” que eu ouvi salgado e quente naquele dia na minha nova casa. Existe vida após “n” tipos de Amor que não têm nomes diferentes, mas que são infinitamente peculiares. Lembra aquela história dos pré-socráticos, de que não se pode entrar no mesmo rio duas vezes por que na segunda vez,  nem o rio, nem você serão os mesmos? Então não se pode comparar duas pessoas, dois momentos, duas histórias ou como falava antes, dois tipos de Amor. Sendo assim eu me sinto bem livre para dizer que eu amo muito as suas sobrancelhas loiras e os seus cílios mais loiros ainda, o som do seu carro com as músicas que só eu e você poderíamos conhecer, você abrir a porta do carro e me tratar como princesa vinte e cinco horas por dia. Estou com aquela boa sensação de estar finalmente fechando um ciclo e que aquelas trocentas quedas passadas, insistidas, frustradas, tudo aquilo que foi tão bom e tão ruim na mesma escala, toda aquela Rita, aquele desejo sobre-humano de mudar pessoas, coisas, frases ou pelo menos aquele meu velho anseio de resignar meus próprios desejos só para agradar o próximo, toda uma pressão, um ideal de perfeição, uma paciência curta demais e gritos, mãos nos meus braços, palavras grosseiras e reações inversamente proporcionais às (boas) emoções, tudo o que eu sofri, com o perdão do verbo, sofri para caralho, tudo o que eu possa ter passado em anos, o que me custou uma vida de contos de fada e quase leva embora minha esperança de encontrar um cara que me fizesse feliz só de olhar, tudo, parece ensaiado para o grande desfecho que foi o recomeço da nossa bela história. Parece que existiram vinte e cinco anos de experiências das mais variadas para que quando você surgisse naquele janeiro, eu soubesse exatamente o valor de ser bem tratada. Por que agradar alguém cheia de expectativas e ansiosa para gostar de alguém, é muito fácil. Difícil mesmo era chegar no meu coração bem calejado, que já nem acreditava em promessas e anéis, nem em brilho no olho, nem em ter qualquer recompensa por perdoar alguém. Difícil é agradar alguém como eu. Difícil é entender que o que arranca meu sorriso é o mais simples “vou comprar um remédio para você” ou “vamos dar uma volta para ver a enchente” ou ainda “deixa eu carregar sua bolsa que está pesada” ou “bom dia princesa” ou “eu não me apaixonei pelas coisas que você gosta, nem as suas bandas preferidas, nem o seu talento para fotografia, eu me apaixonei por você e ponto”. Fácil se apaixonar pela parte de mim que todo mundo vê, meus textos, meus cabelos, minha família perfeita, meu acervo musical, meus filmes, minha pele maquiada, minha austera fortaleza. Difícil, bem difícil, é se apaixonar quando eu perdi a paciência e xinguei todo os carros na minha frente ou quando alguém não é tão rápido quanto eu. Existe vida. Existe Amor. E em alguns momentos eu achei que não, na verdade, eu tive certeza que não. Que casamento é uma droga, que todo homem trai, que se eu engolisse uns sapos eu seria recompensada no final e que eu precisava sorrir 24 horas para ser legal. Aí você chegou sem me pedir nada. Você não me pediu absolutamente nada. Não fez comentário sobre a minha celulite, nem mandou que eu calasse a boca um minuto. Você chegou e me viu e eu fui livre. E o Amor nasceu. Tão livre quanto o espírito que você libertou naquela manhã de domingo de Carnaval. Eu fui livre para amar de novo outra pessoa por que você plantou em mim a sementinha do Amor-próprio que estava oscilando entre dias de sol e chuva. Tão livre para assistir o show da Vanessa da Mata e me sentir livre. Tão Teresina do Chico Buarque, foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não, se instalou feito posseiro, dentro do meu coração. Esse é o meu Amor real. All my little plans and schemes, lost like some forgotten dreams seems that all I really was doing was waiting for you. Não sou mais a mesma, nem o rio. Mas eu ainda acredito que no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá.