Mês: julho 2009

O segundo que antecede.

Naquele milésimo de segundo eu sinto o gosto de champagne quando achava que você era o proibido, o fora de hora, o atrasado e eu bêbada demais me joguei sem dó em piedade, nem senso de responsabilidade nos seus braços e colei no seu paletó, naquele milésimo de segundo eu sinto a areia molhada e a vontade de aceitar o seu convite gritando com placas fluorescentes no meu peito dizendo, “é cedo, mas pode ir, ele não é igual a nada que você já provou na vida”, naquele segundo eu sinto a paz de uma nação após a guerra, desolada, febril, mas cheia de otimismo e dormindo bem tranqüila à noite, naquele bendito segundo eu ganho asas e vôo tão alto, tão frio, tão intenso que não sei mais o caminho de casa, nem onde foi parar aquela gaiola desconfortável que eu julgava ser o meu coração, meu hóspede, naquele segundo eu acordo lá, na outra praia, com um compromisso a mais e rédeas a menos e danço “o caminho do bem” pela segunda vez, naquele Estado, naquele mesmo estado, com você; naquele doce segundo meus pés mal encostam no chão sem importar em riscar a parede de tinta recente, branca, minha e qualquer dia nossa; naquele suave segundo eu canto todas as músicas em alta freqüência, alta fidelidade, altas gargalhas, altos devaneios, altas madrugadas; naquele segundo eu rio como criança, eu grito como num show do Paul McCartney, eu choro como se ganhasse um prêmio na loteria, eu pulo como se quisesse ver do outro lado do muro, eu suspiro como se tivesse realizado um sonho e danço como se meu espelho fosse uma boate; naquele segundo é muito cedo e o sol parece um convite ensaiado para um espetáculo inédito; naquele segundo eu rezo todos os segundos; naquele milésimo de segundo aquele antes da sua boca encostar na minha todas as vezes eu me perco, me jogo no precipício, desfruto de todas as nuvens claras, fofas e surreais disponíveis, naquele milésimo de segundo eu não quero mais me achar.

Vou escrever para você.

E aí que eu tenho pensado muito em escrever um texto para você. Um novo texto, um texto sem precedentes, sem comparativos, imparcial ou passional, não sei. Um texto que você mereça. Aí que esbarro na dificuldade de conseguir mencionar as coisas que você merece só por ter me escolhido para seguir em frente. Eu poderia começar agradecendo por você estar entediado o bastante de uma coisa para querer outra completamente diferente e eu, idem. Mas não quero falar de outras coisas, que outras coisas? Pela primeira vez na vida, eu que carrego “troféus” de experiência sou uma pessoa sem passado. Acordei em primeiro de janeiro de dois mil e nove, nova em folha, te dizendo sentir exatamente o mesmo que você sobre o ano que passou e fazendo planos idênticos, embora até ali, os planos idênticos fossem separados: vida nova! Eu tenho que te agradecer por não ter me beijado e alimentar ainda mais a vontade de tudo com você. Então, falando em tudo eu ponho abaixo todas as teorias (obrigada por isso também) para dizer que eu, com vinte e cinco anos, dez melhores amigas e todas as temporadas de Sex and The City, não sabia de absolutamente nada. Mas o meu texto não pode ser só sobre a manhã de Carnaval por que essa parte eu agradeço todos os dias, quantas vezes eu puder e quanto e onde e tanto e sempre. Você é o meu Carnaval da vida inteira. E a gente tem duzentos anos de namoro e não sabe ainda de nada um do outro, a perfeição. Amor, não consigo não ser redundante e o meu texto só consegue ser carregado de rotina, da nossa deliciosa, nova e moderna rotina. Se eu fosse um pouquinho menos desajuizada já teria te dado a chave da minha casa e trazido todas as suas coisas, incluindo o DVD do Keane e as caixinhas do Ipod tão Tamandaré para mim. Se não fosse tão ajuizada e cheia de pudores eu teria me casado lá, como aquelas pessoas que casam em Vegas, sem vestido de noiva ou convidados da família, eu teria e escreveria textos depois. Embora eu não tenha dito e a gente não tenha mencionado esse assunto por que, nossa, três meses não são três anos. Ok, os primeiros três dias com você me deram três décadas de certeza, é com você que quero ficar pelas próximas três décadas, depois não sei. É por que a gente ainda tem que ir para Londres e Liverpool e a Torre Eiffel há de ser o lugar mais gostoso e apaixonado e livre de rotina e falta da coisa mais gostosa do mundo, de Amor, de Amor real, de independência, da minha total e deliciosa independência emocional de você. Eu te amo por que não te preciso, isso estaria no texto. Você não é a minha família inteira e eu sou cheia de amigas, não vou te ligar de madrugada por que estou ouvindo barulhos estranhos, eu vou te mandar uma mensagem para te dizer o quanto estou feliz para que essa seja a primeira frase que você vai ler no dia. Desisti de procurar algum defeito ou de esperar pela nossa primeira briga por que são coisas que incrivelmente não vão acontecer com a gente, obrigada por tornar a minha vida simples, leve, romântica, suave e quente. Vou começar a escrever um texto para você, eu juro, te aviso quando estiver pronto!