Naquele milésimo de segundo eu sinto o gosto de champagne quando achava que você era o proibido, o fora de hora, o atrasado e eu bêbada demais me joguei sem dó em piedade, nem senso de responsabilidade nos seus braços e colei no seu paletó, naquele milésimo de segundo eu sinto a areia molhada e a vontade de aceitar o seu convite gritando com placas fluorescentes no meu peito dizendo, “é cedo, mas pode ir, ele não é igual a nada que você já provou na vida”, naquele segundo eu sinto a paz de uma nação após a guerra, desolada, febril, mas cheia de otimismo e dormindo bem tranqüila à noite, naquele bendito segundo eu ganho asas e vôo tão alto, tão frio, tão intenso que não sei mais o caminho de casa, nem onde foi parar aquela gaiola desconfortável que eu julgava ser o meu coração, meu hóspede, naquele segundo eu acordo lá, na outra praia, com um compromisso a mais e rédeas a menos e danço “o caminho do bem” pela segunda vez, naquele Estado, naquele mesmo estado, com você; naquele doce segundo meus pés mal encostam no chão sem importar em riscar a parede de tinta recente, branca, minha e qualquer dia nossa; naquele suave segundo eu canto todas as músicas em alta freqüência, alta fidelidade, altas gargalhas, altos devaneios, altas madrugadas; naquele segundo eu rio como criança, eu grito como num show do Paul McCartney, eu choro como se ganhasse um prêmio na loteria, eu pulo como se quisesse ver do outro lado do muro, eu suspiro como se tivesse realizado um sonho e danço como se meu espelho fosse uma boate; naquele segundo é muito cedo e o sol parece um convite ensaiado para um espetáculo inédito; naquele segundo eu rezo todos os segundos; naquele milésimo de segundo aquele antes da sua boca encostar na minha todas as vezes eu me perco, me jogo no precipício, desfruto de todas as nuvens claras, fofas e surreais disponíveis, naquele milésimo de segundo eu não quero mais me achar.