Mês: setembro 2009

Sem dia para hoje.

Acordei e achei tudo muito estranho. O despertador não tocou Here Comes The Sun, como de costume, o despertador nem tocou. Levantei e o café estava sem gosto, a manteiga sem sal e o pão sem fofura. Engoli tudo e fui tomar banho. Não tinha cheiro também o shampoo e o sabonete que você meu deu de presente. Escovei os dentes com a sua escova, mas a pasta não refrescou nada. Não demorei para escolher a roupa por que não tinha nada colorido, nem com babados, nem com textura, nem fluido, nem rígido, nem confortável, nem bonito, não havia diferença entre as roupas, não eram velhas, nem novas, nem haviam colares, aqueles colares todos enfeitando a parede, não haviam enfeites, não tinha anel com cristal Swarovski, não tinha sandálias, não tinha nada. Achei tudo estranho, mas fui trabalhar, não tinha roupas na arara para qualquer ajuste. Não tinha tecidos, não tinha funcionários, não tinha som, não tinha nada, mas liguei o computador. Até tinha Internet, até digitei os sites de sempre e como tudo muito estranho no dia, eles também estavam estranhos, não havia o que pesquisar, nem com quem falar, nem vestidos para entregar até sexta-feira, não havia decoração, nem fome às 11. Não teve fome, nem dor de cabeça, nem dor de dente, nem dor quando caí da escada, nem dor alguma. Também não tinha cor de nada. Nem música alguma, não tinha Killers, não tinha Keane, não tinha Kate Nash, nem as todas as versões que eu andei baixando no YouTube. Não tinha Youtube. Não tinha blog, site, email, MSN, Orkut ou qualquer outra coisa que me ligasse ao mundo. Não tinha mundo também. Não tinha notícias, nem clientes, nem conforto, nem prazo. Mas comi sem ter fome e deitei depois do almoço como eu nunca faço. Apesar desse dia sem dor, sem cor, sem som, sem conforto e sem fome, cochilei um pouco do tempo que ainda não tive hoje, hoje também não teve tempo e cheirei a camisa que você usou ontem. O meu sonho teve o cheiro de sua camisa de ontem e a cor da sua pela mais cor de rosa que a minha. Acordei e as coisas continuavam sem ritmo, sem som, sem cor, sem dor, sem roupa, sem Internet, sem cor de rosa, sem cheiro, sem mim. Mais tarde dirigi até a faculdade sem pisar no acelerador, sem pisar no freio, sem embreagem, sem ar condicionado, sem farol, sem motorista, sem trânsito, sem ruas, sem pressa, sem cantar, não tinha música na minha cabeça. Cheguei e tomei um milkshake marrom sem chocolate algum com uma pizza de queijo de vento. Me alimentei de nada novamente e falei com você pela quarta vez hoje só por que vi sua foto no celular por que as letras sumiram todas, em todo canto, inclusive as do celular, os símbolos que formam o seu nome forte. Desenhei moldes sem saber para quê e costurei uma saia que nem sei se existe. Voltei para casa com o Chico mudo. Em casa ouvi mais do Chico, ainda mudo. Falei com você mais duas vezes e escorreu uma lágrima quente e foi essa a primeira sensação do dia. O dia não teve cor, não teve som, não teve trabalho, não teve letra, não teve roupa, não teve moda, não teve Chico, não teve dor, não teve conforto, não teve pressa, não teve fome, hoje não teve nada. Hoje nem existi, saudade mata a gente.