Antes dessa coisa toda de moda, de faculdade, de casamento, de amadurecer, de ser feliz para sempre, antes de tudo isso acontecer na minha vida, eu escrevia textos. Há muita gente espalhada por aí que lembra que em meados de 2002 eu comecei a escrever textos de Amor e textos de Desamor e que eu abria meu coração sem dó nem piedade às mais ou menos seiscentas pessoas que visitavam meu blog diariamente. Eu lembro bem que ele se chamava “Ritinha Prado”, era hospedado pelo Blogger, tinha um background preto com letras brancas e o desenho de uma mocinha loira com uma camisa do Paul McCartney. O endereço não existe mais e com ele a “Ritinha Prado” foi embora pra sempre. Naquele tempo eu achava que sabia muita coisa sobre o Amor e pra falar bem a verdade eu achava que tudo em quanto que mexia com o meu estômago era mesmo Amor. Eu tinha 19 anos e uma vontade enorme de viver tudo como seu eu fosse morrer no final do dia e fosse nascer outra no dia seguinte. Em se querer fazer tudo certo é que se faz tudo errado e eu errei muito. Eu errei de alvo, errei de propósito, eu projetei passar aqueles malditos cinco anos vivendo uma vida que eu pudesse imprensar numa lata de sardinha depois. É bem verdade que hoje eu tenha imprensado não só cinco, mas pelo menos quinze anos da minha vida numa caixinha de fósforo, a vácuo, para que em nenhum momento alguma lembrança resolva pular e se desenrolar numa apresentação holográfica gigante na frente dos meus olhos, no meio da sala. A gente sabe que embora a gente tente (e consiga inclusive, na maioria das vezes) quando uma danada dessas resolve te pegar de surpresa o peito explode que parece que vai partir ao meio de tanta tensão. Depois, quando eu resolvi esquecer “o resto da vida” que eu havia projetado quando tinha quinze anos, eu criei o blog “A Dona do Amor”. É de extrema arrogância uma pessoa se intitular dessa maneira. Mas eu fiz. E nesse segundo blog, simples, de fundo branco, letras pretas, hospedado pelo companheiro WordPress e uma foto que eu mesma tirei no topo da página, eu exercitei o ápice da minha criatividade. Eu tinha 22 anos e a cabeça cheia de sonhos renovados. Perdi as contas de quantos textos eu escrevi e quantos eu nem publiquei. Escrever um blog sempre foi mais negativo do que positivo para minha imagem pessoal por que ao tempo em que eu sentia a minha necessidade quase básica de jogar as palavras pra fora, um mundo inteiro queria me fazer engolir com elas as cenas que se passaram num terreno acidentado, cheio de feridas e feridos. Que graças a Deus vieram se curar sozinhas para ambas as partes, sem qualquer esforço nosso. Enfim, nesta terceira fase da minha vida, e eu posso dizer, a melhor de todas que eu pude um dia sonhar viver, eu tenho sentido uma vontade enorme de contar meus causos e ao mesmo tempo, pra quê espalhar tanta felicidade? Agora, nesta fase, meu coração está tão macio e o terreno tão adubado, que as palavras faltam fugir para um lugar que eu só posso achar ser imaculado. E agora eu tenho medo. Quando se é jovem, medo é uma palavra ridícula. É como se abrir meu peito fosse parecer uma versão nova, quando eu finalmente descobri, escondida em algum lugar de outra cidade, a versão original daquele single. Single, único. O blog agora deveria se chamar mesmo “Rita Prado e as histórias de como encontrei o Amor” e de como isso me fez crescer de verdade. Este novo blog seria eu, seria meu, seria como regressar ao lugar onde eu fui mais amada, esperada, desejada. Seria como meus pais me trazendo ao mundo pela primeira vez. Os olhos descobrindo coisas que não estavam ali antes. Seria eu descobrindo que eu mesma não estava ali antes. Seria a melhor faixa do disco, o melhor disco, a melhor dupla. Eu tenho 27 anos e a vida começa agora, quando eu finalmente descobri que felicidade não cabe num post.