Eu pulei a parte da adolescência e vim direto para a parte adulta. Não que eu não tenha me sentido estranha também nessa fase, mas é que hoje eu estou especialmente sensível para compartilhar a vida adulta. Bom, eu tive um pouco de dificuldade em aceitar essa parte por que eu não sei bem onde ela começou. Na verdade a pergunta que eu me faço todos os dias é: por que essa fase começou? Embora pareça estranho ou o desabafo de uma pessoa triste, posso afirmar com toda certeza que essa angústia “da meia idade” é mais comum do que muita gente imagina. Eu cresci. Por mais que eu pare e diga para minha mãe que quero voltar para o útero, não dá mais, infelizmente. A vida me chutou para o mundo ou o mundo me chutou para a vida, ainda não consegui definir e por mais legal que seja ser alguém hoje, ter o meu trabalho, minha vida, minha casa, meu mundo, eu vou te dizer com toda certeza: posso recomeçar? Posso voltar? Posso rebobinar a fita? Posso parar a fita? Odeio ser adulta, odeio a mala carregada de memórias e senso de responsabilidade e odeio ainda mais aquelas mulheres que rasgaram o sutien querendo ir para as fábricas trabalhar. Vocês estavam ficando loucas? Vocês já imaginaram o tanto de responsabilidade que vocês jogaram nos braços das mulheres no futuro? É, por que nessa história toda alguém esqueceu de dizer que aquela historinha da mulher dona de casa, esposa, mãe, nora, ela não seria suprimida, nem aliviada, o homem agora quer que além de ser tudo o que você já era, você também estude, trabalhe, fique rica, leve o carro para consertar, oriente a faxineira, decida o almoço, o jantar, diga onde estão as meias, esteja gostosa e quente toda noite e ainda monte a árvore de Natal. Pára, eu quero descer! Quando terminou a adolescência e começou a vida adulta? No primeiro ou no último ano da minha primeira faculdade? Na primeira ou na segunda faculdade? No noivado ou no casamento? Por que ninguém me preparou para largar a mala num lugar qualquer e começar a vida adulta do zero, com um marco. Adolescência não é preparação para nada, no máximo é uma lembrança de vidas passadas. Quem a gente era na adolescência? Eu abri uma empresa com vinte três anos. Isso me fez adulta? Eu me casei ano passado. Isso me faz adulta? Não imagino que eu tenha atingido o grau de maturidade que minha mãe tinha quando tinha a minha idade, duas filhas e um emprego. Onde estacionei minha evolução? Por que não consigo crescer? Por que demora tanto? Por que tudo passou tão rápido e ainda não chegou onde deveria chegar. Onde fica esse tal lugar onde está pendurada a placa: “Pegue aqui o seu pacote completo de estabilidade.”? Por que me questiono tanto? A pressão de dentro para fora já não é suficientemente maior que a de fora para dentro? Por que quanto mais estudo, menos sei de coisa alguma. Por que quanto mais eu sei, menos eu queria saber? Por que não estou mandando a vida catar coquinho e sendo feliz com todas as coisas boas que eu conquistei? Por que ter o meu coração protegido das tempestades não é só o que interessa na vida?  Quando o mundo deixou de ser o meu umbigo? Por que as relações interpessoais são vistas por olhos meus que não estavam aqui antes? Em que caixa eu coloquei os velhos olhos, os velhos ouvidos, as velhas expectativas? Por que não consigo voltar para a parte em que eu queria menos, logo menos frustrada eu ficava por que menos decepção com os causos da vida eu tinha? Por que é que quando eu finalmente consigo apartar meu passado do meu presente e alguém do futuro me dá a mão e eu não consigo existir meu presente? Seria a vida adulta aquela velha pressa da criança em virar adolescente? Estou atropelando meus estranhos vinte e tantos anos? Por às vezes acho que sou a única da rua, do bairro, do mundo que passo horas pensando nisso?