*inspirada pela série You.

Estou na rede há vinte anos. Eu me lembro do som da Internet discada na casa do meu pai em 99 quando a Internet chegou no Piauí. De lá para cá eu venho colecionando stalkers. Gente de toda cor, sexo, idade e domicílio vem assistindo minha vida nas diversas plataformas há vinte anos. Eu sempre me expus. Às vezes mais, às vezes menos. Às vezes fake, às vezes menos também. Eu estive sempre lá. Entre palavras, desenhos e fotografias muito do que meu coração sentiu continua ecoando nos sites de pesquisa. Costurando tudo, muitos supõem saber de mim mais do que eu mesma. Não sabem. Ninguém sabe! Nem de perto sabe! Ainda que eu me expusesse mais, não saberia. Não se sabe como eu acordo, nem como eu me deito, nem o que acontece realmente entre esses dois momentos. Não sabe dos meus defeitos mais bonitos, nem das minhas qualidades mais ridículas. Não sabe com qual tesoura eu corto a minha franja. Não sabe que eu tenho que ouvir as mesmas músicas todos os dias. Não sabe por que eu tenho uma cicatriz no queixo. Não sabe qual é a minha roupa de ficar em casa. Não sabe como é a minha casa. Não sabe que dentro dela tem um relicário. Não sabe que eu tenho novecentos e trinta e cinco corações diferentes. Não sabe que eu não lavo o cabelo com o mesmo shampoo dois dias seguidos. Não sabe que horas eu lavo o meu cabelo. Não sabe o cheiro do meu cabelo. Não sabe qual perfume eu uso, nem qual perfume eu odeio. Não sabe onde eu estudo, onde eu como, onde eu rezo, onde eu leio, onde eu choro. Não sabe que eu tenho medo de tudo. Não sabe o que eu falo para minha terapeuta. Na verdade, até agora nem sabia que eu fazia terapia. – Eu faço! Você também deveria fazer! Um bom stalker não sabe o que me prende nas redes, nem o que me solta. Não sabe quantas cores eu já contei no mar. Não sabe que eu tenho essa mania de neologismos. E que eu sou muito ligada em cores, texturas, formas e funções. Não sabe o que significa cada uma das minhas playlists. Não sabe que eu fui roteirista de filme na vida passada. Não sabe quando eu estou de dieta. Não sabe o que eu penso quando estou sozinha. Não sabe quantos pincéis eu tenho na minha mesa. Não sabe que eu escrevo para pessoas, mas guardo. Não sabe quais as batalhas eu tenho enfrentado do outro lado da tela. Não sabe qual foi o abraço mais forte eu dei, nem o que eu recebi. Não sabe o que os meus olhos dizem em cada fotografia. Não sabe o que os meus olhos calam em cada fotografia. Não sabe quantas câmeras eu tenho e quais eu gostaria de ter. Não sabe que eu não tenho a mínima ideia de como vai ser esse ano. Não sabe que eu tenho planos de pintar o meu cabelo de rosa novamente e, que eu não dou a mínima para a leitura que vão fazer disso a essa altura da minha vida. Não sabe que eu só não liguei o foda-se para uma pessoa na vida. Não sabe o que eu mais amo em mim. Não sabe quantos sonhos já foram triturados aqui. Não sabe quantos ainda estão por vir. Não sabe que, somente este ano, eu descobri que o meu Vênus é em Escorpião, mas que o meu signo oposto complementar é Câncer. E não o contrário! Sim, eu valorizo os signos, um bom stalker até sabe. Só não sabe que eu tenho me agarrado com força. Não sabe nem onde eu estou agora, fazendo o que, com quem e por quê.