Hoje eu completo 30 dias de quarentena. Nesse último mês, assim como a maioria das pessoas que eu conheço, eu tive meus altos e baixos. Eu li recentemente que esse período pode ser comparado com um período de luto: passa pela raiva (pode ser do vírus, do presidente, mas também pode ser das pessoas que enxergam diferente), pela negociação (fico em casa por 15 dias e depois posso voltar para a vida normal?”) e pela tristeza (o momento em que de fato, cai a ficha do que está acontecendo). No fim, atinge a aceitação e depois o significado – “por que aconteceu tudo isso e o que tirarei da situação?”. São etapas que vem e voltam em looping infinito.* trechos adaptados do texto de Alê Garantoni na Revista Vida Simples.

A minha quarentena começou por espontaneidade, estava tudo aberto em Recife. Eu tinha voltado dos Correios, depois de enviar uma estampa e ao me deparar com as notícias no Jornal eu decidi me fechar em casa. A minha maior angústia no começo foi o fato do meu marido não ser liberado para trabalhar em casa, o medo de ele se contaminar. Embora as notícias fossem certas sobre a necessidade do isolamento, as políticas públicas eram mais incertas do que são agora.

Só na primeira semana eu tive umas três crises de ansiedade, insônia, desespero, insegurança, choro e desequilíbrio emocional, foi quando eu decidi parar de ler as notícias. Eu ficava feito louca entre o Twitter, a Globo News e a CNN buscando saber tudo o que eu poderia fazer para não pegar a doença. Pensei em mim, pensei na minha família, pensei nos italianos, nos chineses e, quando chegou com força no Brasil, eu pensei em todos os moradores de rua, trabalhadores informais, autônomos e empregados. Depois eu pensei em todos as marcas que eu consumo diariamente, como as empresas que eu gosto vão sobreviver a isso?

Na primeira semana eu fui do “ai legal, vou fazer várias coisas que estavam planejadas” ao “Deus, muito obrigada por tanto privilégio”.

Quando meu marido foi liberado para trabalhar de casa eu fiquei na dúvida se iria para Teresina ou não, eu tinha passagem marcada para passar uma semana lá para o nascimento da minha sobrinha, mas de um dia para o outro avião deixou de ser opção. Recife era uma das cidades com mais casos e, o jornal local estava sendo transmitido para o Piauí. De repente, viramos persona non grata. Ninguém queria que a gente fosse a não ser os nossos pais. Mas, se fossemos não poderíamos ver os nossos pais tão cedo, então, a pior decisão que eu tomei na quarentena foi a de ficar aqui e não enfrentar as doze horas de estrada entre Recife e Teresina.

Nas semanas seguintes, as coisas foram estabilizando. Fiz um horário contemplando as coisas de casa, o lazer enclausurado, a hora do filme, da série, do livro, do estudo. A minha intenção era dar conta de não pirar. Enquanto isso, no Instagram, algumas pessoas sumiram e outras postaram como nunca. Receitas de bolo, treinos, dicas de filmes e séries, tutoriais de maquiagem para ir a lugar nenhum, assistindo lives sertanejas, alguns numa realidade paralela, de férias numa fazenda belíssima ou na casa de praia (meu sonho!) e eu senti cada vez menos vontade de postar. Eu inclusive me senti mal pelas vezes em que eu esqueci completamente que estava isolada (não por opção, mas por que pessoas podem morrer se eu não fizer isso). É um peso muito forte para se carregar! Então, muitas vezes eu apaguei algum post ou storie por que não me achava no direito de falar nada extra quarentena. Embora eu mesma buscasse perfis que me distraíssem da quarentena.

Há poucos dias me dei conta de que internalizei a quarentena. Eu já não acordo mais desesperada em fazer alguma coisa que faça eu me sentir produtiva, salvar o mundo, nem em querer sair correndo de casa para ver o mar de perto. A quarentena entrou numa rotina. É uma lógica de vida completamente diferente e eu me dei conta, com tantas mudanças no último ano, como eu sou um ser adaptável! Não vai resolver pensar só no trabalho, no que vai ser, como vai ser. Ninguém sabe! Eu tenho assistido muitas lives de previsões mercadológicas, mudanças comportamentais, de gente que eu admiro, fazendo reflexões sobre o mundo pós-pandemia e não me causa mais tanto medo.

A minha fé esteve sendo trabalhada dia após dia nos últimos dias. E é nessa hora que eu tenho que aprender a confiar em Deus. Deus está presente o tempo todo, mesmo quando a gente não vê.

Conheci a minha sobrinha pela ligação de vídeo do Whats App; terminei de assistir Messiah; comecei Freud; vi live de John Legend a Mombojó; fiz uma live; conversei com meus amigos pelo Zoom; tentei aprender a jogar tênis de mesa; revi alguns filmes e fotografias que eu amo; vi alguns filmes novos; tomei algumas garrafas de vinho e cervejas; fiz café da manhã, almoço e jantar praticamente todos os dias; lavei e passei roupas; limpei a casa, lavei banheiro; assisti a primeira temporada de Downton Abbey, revi a segunda de Sex and The City, me choquei com De Férias com o Ex Celebs e Soltos em Floripa, a nova temporada de A Casa de Papel, o bizarro Tiger King e BBB todos os dias; rezei; assisti missa de madrugada com insônia;  stalkeei o Papa Francisco; vivi a Quaresma; desidratei assistindo a Paixão de Cristo de Mel Gibson pela primeira vez;  malhei pelo menos duas vezes na semana; comi muito carboidrato e brigadeiro; senti falta do meu uke; desenhei umas roupas loucas; senti falta do cinema, de sushi, do shopping; me arrumei pra ficar em casa; tentei fotografar uma Lua linda nascendo no mar; cantei parabéns online para meu sobrinho, para minha amiga da escola e para a minha irmã; passeei de carro pela cidade sem destino; fui convidada a falar sobre criatividade em tempos difíceis duas vezes e muitas outras coisas.

Não li um livro sequer, ganhei dois cursos que estão parados e não fiz metade das coisas que estão no horário, mas quer saber, não sinto mais culpa. Algumas leituras, reflexões e dias depois, eu consigo entender que, embora a gente queira, não existe um manual a ser seguido, Deus tem um propósito para cada um de nós e com a quarentena, não é diferente. Força, fé e esperança para os próximos dias, que sejam prósperos ou não. Seja gentil com você mesma.