Sem dia para hoje.

Acordei e achei tudo muito estranho. O despertador não tocou Here Comes The Sun, como de costume, o despertador nem tocou. Levantei e o café estava sem gosto, a manteiga sem sal e o pão sem fofura. Engoli tudo e fui tomar banho. Não tinha cheiro também o shampoo e o sabonete que você meu deu de presente. Escovei os dentes com a sua escova, mas a pasta não refrescou nada. Não demorei para escolher a roupa por que não tinha nada colorido, nem com babados, nem com textura, nem fluido, nem rígido, nem confortável, nem bonito, não havia diferença entre as roupas, não eram velhas, nem novas, nem haviam colares, aqueles colares todos enfeitando a parede, não haviam enfeites, não tinha anel com cristal Swarovski, não tinha sandálias, não tinha nada. Achei tudo estranho, mas fui trabalhar, não tinha roupas na arara para qualquer ajuste. Não tinha tecidos, não tinha funcionários, não tinha som, não tinha nada, mas liguei o computador. Até tinha Internet, até digitei os sites de sempre e como tudo muito estranho no dia, eles também estavam estranhos, não havia o que pesquisar, nem com quem falar, nem vestidos para entregar até sexta-feira, não havia decoração, nem fome às 11. Não teve fome, nem dor de cabeça, nem dor de dente, nem dor quando caí da escada, nem dor alguma. Também não tinha cor de nada. Nem música alguma, não tinha Killers, não tinha Keane, não tinha Kate Nash, nem as todas as versões que eu andei baixando no YouTube. Não tinha Youtube. Não tinha blog, site, email, MSN, Orkut ou qualquer outra coisa que me ligasse ao mundo. Não tinha mundo também. Não tinha notícias, nem clientes, nem conforto, nem prazo. Mas comi sem ter fome e deitei depois do almoço como eu nunca faço. Apesar desse dia sem dor, sem cor, sem som, sem conforto e sem fome, cochilei um pouco do tempo que ainda não tive hoje, hoje também não teve tempo e cheirei a camisa que você usou ontem. O meu sonho teve o cheiro de sua camisa de ontem e a cor da sua pela mais cor de rosa que a minha. Acordei e as coisas continuavam sem ritmo, sem som, sem cor, sem dor, sem roupa, sem Internet, sem cor de rosa, sem cheiro, sem mim. Mais tarde dirigi até a faculdade sem pisar no acelerador, sem pisar no freio, sem embreagem, sem ar condicionado, sem farol, sem motorista, sem trânsito, sem ruas, sem pressa, sem cantar, não tinha música na minha cabeça. Cheguei e tomei um milkshake marrom sem chocolate algum com uma pizza de queijo de vento. Me alimentei de nada novamente e falei com você pela quarta vez hoje só por que vi sua foto no celular por que as letras sumiram todas, em todo canto, inclusive as do celular, os símbolos que formam o seu nome forte. Desenhei moldes sem saber para quê e costurei uma saia que nem sei se existe. Voltei para casa com o Chico mudo. Em casa ouvi mais do Chico, ainda mudo. Falei com você mais duas vezes e escorreu uma lágrima quente e foi essa a primeira sensação do dia. O dia não teve cor, não teve som, não teve trabalho, não teve letra, não teve roupa, não teve moda, não teve Chico, não teve dor, não teve conforto, não teve pressa, não teve fome, hoje não teve nada. Hoje nem existi, saudade mata a gente.

Carta aberta.

Eu não sei pelo o que você está passando, amiga. Não sei o tamanho da sua dor, o que resta ainda de força, não sei o que você considera amor, o que te faz feliz, eu não sei. Não vou julgar seus atos nem vou achar vergonhoso você engolir alguns sapos para ficar com quem você julga ser o amor da sua vida. Não vou fazer isso. Mas eu me acho no direito de te escrever esse manifesto otimista. Quando a gente se apaixona por alguém a gente tende a jogar qualquer sujeira para debaixo do tapete. Quando a gente tem a infelicidade de se apaixonar por alguém que tem muita sujeira para jogar debaixo do tapete a gente acaba se escondendo lá embaixo também. O tempo vai passando e a gente vai ficando cada vez menor e a sujeira vai te deixando sem espaço. Nesse momento, a maioria de nós até coloca a cabeça para fora algumas vezes, mas adia tanto em tomar a decisão de sair daquela montanha russa claustrofóbica, que o dono da sujeira por si só vai embora atrás de um canto melhor. Nessa hora você acha logo que os mil defeitos que o bonitão plantava em você eram todos verdade. O cara vai embora. E agora você tem que juntar o pó da sujeira e todos os seus caquinhos sozinha. É nesse momento da sua vida, o pior momento onde, sem o cara que você amou e desamou tantas vezes no mesmo dia, você vai ter que tomar a pior decisão: não fazer tudo de novo. E eu estou aqui para te dizer por que você não deve fazer isso. Eu poderia falar que você é linda, inteligente, bem sucedida profissionalmente e a namorada que muito homem por aí sonhou, mas essa parte você não vai enxergar tão cedo. Mas eu vou te falar de uma experiência pessoal de quem sempre foi muito prática nessa matéria de relacionamento e burlar o sofrimento sempre foi a parte de que eu mais me orgulho nessa história toda. A pessoa que inventou a frase “a dor é inevitável, o sofrimento é opcional” não estava querendo vender livros de auto-ajuda, estava só querendo que você tivesse um ponto de vista. Eu sei, somos sensíveis, choramos em músicas, olhamos duzentas vezes a mesma foto e algumas de nós acham que nunca mais na vida vão encontrar outra pessoa. Outra pessoa o quê? Outra pessoa que vá te fazer sofrer do mesmo tanto ou pior? O primeiro passo é colocar numa balança os momentos. Os bons superam os ruins? Eu vou te dizer amiga, outra pessoa, uma pessoa, pode aparecer na sua vida. A pessoa. Por que a minha parte emocional sempre disse que, se eu sou uma pessoa boa, eu mereço outra pessoa boa e isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde, mas a gente tem que estar disposta a receber. Amiga, mas eu não quero que você pense em encontrar uma pessoa que se compare ao dono da sujeira toda da sua vida, mesmo que esse cara tenha sido dono de muitas coisas boas também. O que eu quero que você saiba é que o Amor não precisa de sujeira. Sujeira entenda, pode nem ser traição, pode ser uma convivência difícil, pode ser comodismo, pode ser falta de respeito ou mesmo a falta de paixão. Sujeira é tudo o que te fez sentir mal, dormir mal, comer mal, trabalhar mal, se olhar no espelho e se achar mal. Sujeira é tudo de ruim que ele tentou plantar na sua cabeça, diminuir sua auto-estima, não valorizar todas as suas qualidades, te desprezar, mentir para você, disfarçar uma conversa mais séria, adiar a decisão de dar um passo além. Amiga, amor não é para ter sujeira. O cara certo, esse não vai fazer o mínimo esforço em te fazer feliz e tudo vai acontecer naturalmente. Você conhece a minha história, todos os meus esforços, todas as minhas tentativas, tudo o que eu tentava esconder com um sorriso, você sabe tudo amiga. E você me vê hoje. Sem falsa modéstia, meu relacionamento é perfeito. O cara que eu encontrei não faz o mínimo esforço para me fazer feliz, mas me faz a mulher mais feliz, amada e desejada do mundo. Com ele eu me sinto bem vinte e quatro horas. Lembra quantas vezes eu te liguei para reclamar qualquer besteira e hoje eu só tenho coisas boas, interessantes e planos possíveis de um futuro próximo para falar. E eu nunca imaginei que no final eu fosse estar com ele por que muitas vezes eu estava tão ocupada tentando disfarçar a sujeira que não olhei pro lado para ver que aquele cara no momento certo iria mudar a minha vida para sempre. Existe um cara assim para toda mulher boa que eu conheço. Você é uma delas. Não desista de ser cem por cento feliz, eu juro para você, vai acontecer. Não era esse cara que já escorreu tanto no seu rosto, esse cara vai te fazer meio feliz. Você não merece ser meio feliz. Não desperdice a chance de ser feliz de verdade, em período integral e incondicional com uma pessoa que vale muito muito muito muito mais a pena.

O segundo que antecede.

Naquele milésimo de segundo eu sinto o gosto de champagne quando achava que você era o proibido, o fora de hora, o atrasado e eu bêbada demais me joguei sem dó em piedade, nem senso de responsabilidade nos seus braços e colei no seu paletó, naquele milésimo de segundo eu sinto a areia molhada e a vontade de aceitar o seu convite gritando com placas fluorescentes no meu peito dizendo, “é cedo, mas pode ir, ele não é igual a nada que você já provou na vida”, naquele segundo eu sinto a paz de uma nação após a guerra, desolada, febril, mas cheia de otimismo e dormindo bem tranqüila à noite, naquele bendito segundo eu ganho asas e vôo tão alto, tão frio, tão intenso que não sei mais o caminho de casa, nem onde foi parar aquela gaiola desconfortável que eu julgava ser o meu coração, meu hóspede, naquele segundo eu acordo lá, na outra praia, com um compromisso a mais e rédeas a menos e danço “o caminho do bem” pela segunda vez, naquele Estado, naquele mesmo estado, com você; naquele doce segundo meus pés mal encostam no chão sem importar em riscar a parede de tinta recente, branca, minha e qualquer dia nossa; naquele suave segundo eu canto todas as músicas em alta freqüência, alta fidelidade, altas gargalhas, altos devaneios, altas madrugadas; naquele segundo eu rio como criança, eu grito como num show do Paul McCartney, eu choro como se ganhasse um prêmio na loteria, eu pulo como se quisesse ver do outro lado do muro, eu suspiro como se tivesse realizado um sonho e danço como se meu espelho fosse uma boate; naquele segundo é muito cedo e o sol parece um convite ensaiado para um espetáculo inédito; naquele segundo eu rezo todos os segundos; naquele milésimo de segundo aquele antes da sua boca encostar na minha todas as vezes eu me perco, me jogo no precipício, desfruto de todas as nuvens claras, fofas e surreais disponíveis, naquele milésimo de segundo eu não quero mais me achar.

Vou escrever para você.

E aí que eu tenho pensado muito em escrever um texto para você. Um novo texto, um texto sem precedentes, sem comparativos, imparcial ou passional, não sei. Um texto que você mereça. Aí que esbarro na dificuldade de conseguir mencionar as coisas que você merece só por ter me escolhido para seguir em frente. Eu poderia começar agradecendo por você estar entediado o bastante de uma coisa para querer outra completamente diferente e eu, idem. Mas não quero falar de outras coisas, que outras coisas? Pela primeira vez na vida, eu que carrego “troféus” de experiência sou uma pessoa sem passado. Acordei em primeiro de janeiro de dois mil e nove, nova em folha, te dizendo sentir exatamente o mesmo que você sobre o ano que passou e fazendo planos idênticos, embora até ali, os planos idênticos fossem separados: vida nova! Eu tenho que te agradecer por não ter me beijado e alimentar ainda mais a vontade de tudo com você. Então, falando em tudo eu ponho abaixo todas as teorias (obrigada por isso também) para dizer que eu, com vinte e cinco anos, dez melhores amigas e todas as temporadas de Sex and The City, não sabia de absolutamente nada. Mas o meu texto não pode ser só sobre a manhã de Carnaval por que essa parte eu agradeço todos os dias, quantas vezes eu puder e quanto e onde e tanto e sempre. Você é o meu Carnaval da vida inteira. E a gente tem duzentos anos de namoro e não sabe ainda de nada um do outro, a perfeição. Amor, não consigo não ser redundante e o meu texto só consegue ser carregado de rotina, da nossa deliciosa, nova e moderna rotina. Se eu fosse um pouquinho menos desajuizada já teria te dado a chave da minha casa e trazido todas as suas coisas, incluindo o DVD do Keane e as caixinhas do Ipod tão Tamandaré para mim. Se não fosse tão ajuizada e cheia de pudores eu teria me casado lá, como aquelas pessoas que casam em Vegas, sem vestido de noiva ou convidados da família, eu teria e escreveria textos depois. Embora eu não tenha dito e a gente não tenha mencionado esse assunto por que, nossa, três meses não são três anos. Ok, os primeiros três dias com você me deram três décadas de certeza, é com você que quero ficar pelas próximas três décadas, depois não sei. É por que a gente ainda tem que ir para Londres e Liverpool e a Torre Eiffel há de ser o lugar mais gostoso e apaixonado e livre de rotina e falta da coisa mais gostosa do mundo, de Amor, de Amor real, de independência, da minha total e deliciosa independência emocional de você. Eu te amo por que não te preciso, isso estaria no texto. Você não é a minha família inteira e eu sou cheia de amigas, não vou te ligar de madrugada por que estou ouvindo barulhos estranhos, eu vou te mandar uma mensagem para te dizer o quanto estou feliz para que essa seja a primeira frase que você vai ler no dia. Desisti de procurar algum defeito ou de esperar pela nossa primeira briga por que são coisas que incrivelmente não vão acontecer com a gente, obrigada por tornar a minha vida simples, leve, romântica, suave e quente. Vou começar a escrever um texto para você, eu juro, te aviso quando estiver pronto!

Nem eu, nem o rio.

Existe vida após o Amor. Existe Amor após Amor e eu bem que usaria outra palavra para diferenciar sentimentos tão diferentes que podem ser usados com o mesmo nome, sempre. O mesmo “Eu te Amo” que eu escrevi para o menino da escola e nem assinei por que dizer aquilo era só para me libertar de guardar tamanha frase sozinha, não é de longe o mesmo “Eu te Amo” que eu ouvi salgado e quente naquele dia na minha nova casa. Existe vida após “n” tipos de Amor que não têm nomes diferentes, mas que são infinitamente peculiares. Lembra aquela história dos pré-socráticos, de que não se pode entrar no mesmo rio duas vezes por que na segunda vez,  nem o rio, nem você serão os mesmos? Então não se pode comparar duas pessoas, dois momentos, duas histórias ou como falava antes, dois tipos de Amor. Sendo assim eu me sinto bem livre para dizer que eu amo muito as suas sobrancelhas loiras e os seus cílios mais loiros ainda, o som do seu carro com as músicas que só eu e você poderíamos conhecer, você abrir a porta do carro e me tratar como princesa vinte e cinco horas por dia. Estou com aquela boa sensação de estar finalmente fechando um ciclo e que aquelas trocentas quedas passadas, insistidas, frustradas, tudo aquilo que foi tão bom e tão ruim na mesma escala, toda aquela Rita, aquele desejo sobre-humano de mudar pessoas, coisas, frases ou pelo menos aquele meu velho anseio de resignar meus próprios desejos só para agradar o próximo, toda uma pressão, um ideal de perfeição, uma paciência curta demais e gritos, mãos nos meus braços, palavras grosseiras e reações inversamente proporcionais às (boas) emoções, tudo o que eu sofri, com o perdão do verbo, sofri para caralho, tudo o que eu possa ter passado em anos, o que me custou uma vida de contos de fada e quase leva embora minha esperança de encontrar um cara que me fizesse feliz só de olhar, tudo, parece ensaiado para o grande desfecho que foi o recomeço da nossa bela história. Parece que existiram vinte e cinco anos de experiências das mais variadas para que quando você surgisse naquele janeiro, eu soubesse exatamente o valor de ser bem tratada. Por que agradar alguém cheia de expectativas e ansiosa para gostar de alguém, é muito fácil. Difícil mesmo era chegar no meu coração bem calejado, que já nem acreditava em promessas e anéis, nem em brilho no olho, nem em ter qualquer recompensa por perdoar alguém. Difícil é agradar alguém como eu. Difícil é entender que o que arranca meu sorriso é o mais simples “vou comprar um remédio para você” ou “vamos dar uma volta para ver a enchente” ou ainda “deixa eu carregar sua bolsa que está pesada” ou “bom dia princesa” ou “eu não me apaixonei pelas coisas que você gosta, nem as suas bandas preferidas, nem o seu talento para fotografia, eu me apaixonei por você e ponto”. Fácil se apaixonar pela parte de mim que todo mundo vê, meus textos, meus cabelos, minha família perfeita, meu acervo musical, meus filmes, minha pele maquiada, minha austera fortaleza. Difícil, bem difícil, é se apaixonar quando eu perdi a paciência e xinguei todo os carros na minha frente ou quando alguém não é tão rápido quanto eu. Existe vida. Existe Amor. E em alguns momentos eu achei que não, na verdade, eu tive certeza que não. Que casamento é uma droga, que todo homem trai, que se eu engolisse uns sapos eu seria recompensada no final e que eu precisava sorrir 24 horas para ser legal. Aí você chegou sem me pedir nada. Você não me pediu absolutamente nada. Não fez comentário sobre a minha celulite, nem mandou que eu calasse a boca um minuto. Você chegou e me viu e eu fui livre. E o Amor nasceu. Tão livre quanto o espírito que você libertou naquela manhã de domingo de Carnaval. Eu fui livre para amar de novo outra pessoa por que você plantou em mim a sementinha do Amor-próprio que estava oscilando entre dias de sol e chuva. Tão livre para assistir o show da Vanessa da Mata e me sentir livre. Tão Teresina do Chico Buarque, foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não, se instalou feito posseiro, dentro do meu coração. Esse é o meu Amor real. All my little plans and schemes, lost like some forgotten dreams seems that all I really was doing was waiting for you. Não sou mais a mesma, nem o rio. Mas eu ainda acredito que no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá.