Eu trouxe meu Carnaval para casa – Parte 1.

Eu trouxe o Carnaval para os outros trezentos e sessenta e um dias desse ano. Eu não me contenho em falar só de abril, daí eu volto para março. Nem me contenho de falar só de março aí volto para o Carnaval, mas aí eu tenho que voltar para janeiro e um janeiro vai puxar o outro e eu vou falar de quantos anos mesmo?! E de “quantos anos mesmo” eu volto para bem antes, bem antes de mim, de ser isso aqui, de pelo menos querer ser isso aqui, um mim que era outro e que eu nem lembrava. A primeira vez que eu te vi foi na escola. Eu estava na sétima e você no segundo ano, mas a gente dividia o mesmo tamanho e a mesma cor de cabelo. Eu te vi, mas não tanto e nunca mais. Quase dez anos depois você me aparece grande e eu te vi tanto, tanto que peguei você para mim por alguns dias, numa festa, noutra festa, no cinema, na Internet que ainda era pequena e meses mais tarde fui longe e de carro só para te ver de novo. E eu te vi, mas você, não tanto e eu escrevi um texto que eu acabei de achar, falando de como você era príncipe e como eu nunca tinha encontrado alguém tão príncipe antes. Aí nós sumimos. Separados. Dias, meses, anos, muitos anos. E eu guardei as lembranças de você na mesma caixinha que eu guardei o Closer, a música Rag Doll, do Maroon Five, a minha mania de chamar a tua irmã de cunhada e o teu sorriso de príncipe, numa caixa com o número da minha sorte e da camisa do seu time de futebol. Aí depois veio você aqui quando eu já nem esperava. Aí você me viu e tanto e eu tanto te vi que doeu na alma não te beijar com meu vestido branco. Depois sonhei com você e muitas taças de champagne e você foi embora, de novo. E eu sumi de novo e você sumiu de novo e tão de novo você ainda morava longe e a tua boca estava tão longe que eu sosseguei de sonhar com você por uns meses. Aí eu fui embora no dia trinta e um do ano passado. Não fui embora de você, eu já tinha ido. Fui embora de mala, cabeça e cuia, da vida que se fez nesses anos todos enquanto eu e você insistíamos em trapacear o nosso fidedigno destino. E eu te vi em janeiro, num dia, te vi tanto, te quis tanto, mas era tanto que não podia ser pela metade, rápido ou com reservas. Aí eu fui embora daquele lugar incomum com a sensação de ter que completar um texto quando ainda estava na primeira frase. Aí eu trouxe você para janeiro de novo e a frase que faltava virou promessas a cumprir e uma passagem para o paraíso e com bônus de uma vida toda nova. Eu fui de ônibus e nos primeiros trezentos quilômetros desisti por um segundo, mas não voltei. O medo de frustrar as minhas expectativas em relação a você que era tão antigo, mas tão novo, me causou terríveis dores físicas, mas eu não voltei e dezessete horas depois e todas as horas seguintes, inclusive essa agora. Você só suplantou todas aquelas setecentas e noventa e quatro expectativas. Aí eu escrevi outro texto para registrar a nova eu. Aí eu trouxe você e não cabia mais na caixinha do Closer, junto com as outras coisas. Você já não cabia mais dentro de um só peito meu e eu pedi a sua ajuda para abrigar você e caber em mim. E você veio. E a minha vida inteira virou Carnaval, inclusive em março e abril. Por que eu não imaginei que em março você queria o nosso mais sincero compromisso e você veio pessoalmente me levar dentro de contêineres por que a essa altura eu não cabia mais nem no peito, nem em mim, nem a minha casa, nem no bairro, nem nessa cidade e eu fui toda com você em março, embora o plano físico tenha ido trabalhar todos os dias no meu lugar. Aí eu tive a certeza que de você encontrou o único exemplar raríssimo do Manual de Mim.

De quando eu fecho o olhos.

Eu fecho os olhos e imagino o nosso cenário. Aquele cenário, naquele feriado onde todo mundo pode tudo. Eu fecho os olhos e me imagino lá. Eu fecho os olhos e imagino como tudo pôde ser tão diferente. O sol forte entrando por debaixo da porta e por um pedaço da janela que ninguém pôde cobrir. Eu fecho os olhos e me imagino lá acordando com você sem que isso significasse uma noite quente no dia anterior. O máximo de intimidade sem intimidade alguma, a ordem inversa das coisas, o horário trocado. Eu imagino quantos chicletes eu gastei esse ano quando a gente saiu, inclusive quando eu apareci no seu prédio de surpresa e te beijei enquanto você ouvia Dear Prudence no meu Ipod. Tantos chicletes para que no beijo mais demorado da minha vida eu não tivesse ainda levantado para escovar os dentes. Eu imagino a minha surpresa em sentir a química gritando no volume máximo para os vizinhos dos mil prédios em volta do seu nessa cidade que eu agora amo. Eu fecho os meus olhinhos e imagino o espasmo que o ar condicionado dá e o meu susto ao descobrir a faxineira logo cedo me lembrando que existem mais de duas pessoas no mundo a partir daquele momento. Eu fecho os olhos e cheiro o teu perfume que ficou na ponta do meu nariz pelas dezessete horas seguintes. Eu fecho os olhos e vejo você trazendo o café com leite, tirando a camisa, vestindo seu melhor sorriso e a minha maior expectativa. Eu fecho os olhos e as horas voam. Eu imagino você do outro lado da lancha, com o vento desarrumando o teu cabelo e conversando sem perceber que naquele bendito momento, eu já estava me apaixonando por você. Eu fecho os olhos e lembro que você era o mais acessível da sua sala de meninos grandes quando eu ainda era uma pirralha. Eu fecho os olhos e te reencontro anos mais tarde, mais acessível ainda e a gente indo para o cinema assistir Closer pela primeira vez. E a gente assistiu de Closer ao O Curioso Caso de Benjamim Button e todos os filmes entre eles dois acabaram de ser suprimidos pela minha vontade de nem colecionar lembranças só para sentir a tua mãozinha encostando na minha perna no cinema. Eu fecho os olhos e espero tua boca. Eu fecho os olhos e te espero aqui para jogar cartas como eu já nem lembrava que sabia jogar alguma coisa, nem cartas, nem volley. Você tem o gosto da minha melhor adolescência, tem gosto de novidade, de esperança, de amendoim salgado daquela festa. Eu fecho os olhos e danço um samba rock com você. Depois dirijo o seu carro pela primeira vez, na chuva, de sutien cor de rosa e a maquiagem escorrendo no pescoço. Eu fecho os olhos e você divide um pacote de bolacha e um chocolate na minha boca. Eu tomo banho de chuva, na frente do mar de Olinda, beijo, chuva, você e as mãos tremendo de frio, mas o coração quase para explodir de tão quente. Eu fecho os olhos e te conheço há anos, mas você é uma surpresa a cada dia. Eu fecho os olhos e quero você para mim. Eu fecho os meus incansáveis olhos e posso ser quem eu quiser com você. Por que você não me viu quando eu era modelo, nem me leu quando eu escrevia frequentemente, nem esperou que eu saísse de casa arrumada e com dois cds de uma banda nova, nem achou que as minhas amigas só falavam besteira, você só sentiu a nossa química e pronto! Eu fecho os olhos e sou feliz só de te imaginar de volta, aqui, para mim.

O falso bloqueio.

Começou. Domingo passado eu senti uma dor tão forte que corri no cardiologista de plantão e ele disse em alto e bom som que eu tinha uma coisa chamada bloqueio no ramo direito do coração. Eu sabia, sempre soube que meu coração era bloqueado, é de nascença, não se formou com o tempo, nem com as intempéries que ele teve que passar. Durante a semana, a semana que precedeu essa minha semana deliciosa, eu pensei em mil coisas que poderiam me acontecer caso meu problema, literal, de coração, fosse mais grave do que eu estava acostumada. Ontem eu fiz outra consulta e o médico me disse que esse bloqueio, que seria normal, “não chega a ser assim, um bloqueio, sabe?!”. Ufa. Não sou uma pessoa que carrega problemas como se fosse uma bolsa Prada original, um troféu, logo meu bloqueio ia ficar logo de escanteio, se não fosse o fato de que ele mesmo nem existe. Meu coração é saudável, mas preciso fazer exercícios, regularmente. Para o coração eu tenho afastado as pessoas carregadas (como as que ostentam os problemas como se fosse uma bolsa Prada) e me aproximado de pessoas, assim como eu, desbloqueadas. Aí entra a parte dessa história que eu mais gosto: eu ganhei um coração novo, zerado, novinho em folha, limpo e pronto para bombear saúde. Meu novo coração veio numa manhã de Carnaval, com o céu muito nublado e quatro grandes confirmações de quão saudável somos nós. Estou pronta, pode começar.

Meu lado Maitê.

Estou lendo a Maitê novamente. Eu gosto de como mulheres como ela, Lya Luft e Tatiane Bernardi descrevem os sentimentos mais ínfimos. Decidi voltar a escrever com todo o gosto e sem a dor de publicá-los. E foi ontem à noite antes de parecer estúpida, bêbada e de vestido curto na boate que eu revivi a minha paixão mais gostosa. Do lado de dentro existem um turbilhão de mim que não consegue se expressar ao não ser pelo teclado. Tem um mundo inteiro dentro de mim que ninguém conhece. São pessoas, cheiros, gostos e fotos que eu não consigo expressar. São infinitamente contrastantes as minhas facetas, mas não consigo anunciá-las. Morro um pouquinho dentro de mim quando a boca é mais audaz que a minha vontade de falar. Estou solta para dedilhar o que me dá prazer, sem pudores e mais egoísta do que nunca. Já nem importa quantos dias vou ter que passar catando as peças que foram espalhadas no (ventila)dor. Decidi não reprimir. A partir de hoje, nem coisa, nem gente, vai fazer minha imaginação ficar guardar dentro de uma caixa. E isso vale para quem ainda vem aqui achando que um dia vai mudar de lado da tela, não mais, nunca mais. Eu ando meio revoltada demais com o mundo, com os relacionamentos, com os adultos, com os desvios, comigo mesma e minha mania de colocar flores onde não tem, então nem me sinto à vontade ainda para falar qualquer coisa boa demais desse ano ou qualquer coisa ruim demais do ano passado. O ano passado é mesmo ano passado, uma vida passada, textos passados, um livro inteiro passado, eu mesma do passado e o meu fabuloso racional cuidou de botar a sujeira toda debaixo do tapete da casa também passada. Então, vou voltar a escrever por esses dias, das pequenas felicidades como segurar a mão no cinema e beijar até a boca dobrar de tamanho. As pequenas coisas que o hábito torna comum, o prazer comum, o dia comum, o elogio comum, a rotina comum, a desgraça comum, o tédio comum e a conseqüente infidelidade incomum, pelo menos para minha pessoa, bem comum. Aquela que transforma o momento mais sublime e cúmplice em esporte. Não era para ter virado esporte, mas a maioria faz disso os quantos por cento, mesmo? Noventa e nove por cento, que eu tive a infelicidade de falar um dia, só para causar uma boa impressão. Sou mesmo muito boba. Driblo a dor, burlo meu pesar, engano meu chão, não sinto um pouquinho sequer de arrependimento de nada, nada, nem as dores, nem o leve desprezo, nem a consciência, nada. Minha cabecinha é cheia de manias e essa é só mais uma: escrever para espantar os maus espíritos, para emprenhar todas as dores e parí-las ao mundo. Num segundo me sinto livre, desapego. Desapego, desapego, desapego, a política mais praticada do lado de cá por vários dias até que eu esteja tão livre que me embrulhe num pacote e me dê de presente para outra pessoa, que pode ser a pessoa de verdade ou alguém que me decepcione novamente. Então virão mais textos doces e salgados, nessa mesma ordem, mas eu desejo não parar tão cedo. Por que assisto tantos filmes que sou capaz de me apaixonar perdidamente por quem nem sabe o meu nome, a minha existência, os meus valores e posso ser irritantemente carinhosa, amável e aparentemente apaixonada por que não me interessa nem um pouco. Então, para fugir da minha estúpida lógica, escrevo, assim me sinto mais eu.

Escrever é prática escondida, solitária. Entre o ócio e a preguiça rumino idéias e invento casos que não me teriam ocorrido se o teclado não me puxasse os dedos. Sento em frente à tela e vou teclando meio sem rumo, colocando o que me vem à cabeça … Tem a frase que já não cabe, mas, como gosto, não quero abrir mão. Dá-se aquele raciocínio gordo. Apago. Para ficar no papel eternizado é preciso depurar o pensamento até que ele pareça ter nascido ali – quando isso acontece o prazer é sublime. Quando não acontece, percebo e volto e volto ali e volto ali… Há ocasiões em que a solução só se apresenta depois da frase publicada, leite derramado, e ai que tormenta! (…) Descobri que existem histórias inesgotáveis brotando dentro de mim. Carrego-as para onde quiser, posso andar feito cigana sem pouso, por que cada esquina do mundo a fonte só faz aumentar. A terra onde nascem minhas crias e frutos eu levo dentro, e o adubo que a fertiliza é toda coisa que existem em volta.”

Maitê Proença em Uma vida inventada.