Hello, Stranger – Parte 1 – Da Infância à Pré Adolescência

 

A primeira vez que eu lembro de ter me deparado com o estranho foi na infância. Eu achava estranho o fato de ter duas irmãs com idades parecidas, mas diferentes da minha. Depois eu comecei a achar estranho o fato de ser mais magra que todas as pessoas da minha idade que eu conhecia. Eu me lembro de olhar para o céu e achar o céu estranho. É que eu olhava fixamente num ponto e a visão provocava algum efeito (e ainda provoca até hoje), mas eu tentava explicar e não conseguia, o que faz você se sentir ainda mais estranha. Depois eu achava estranho meus vizinhos, minhas amigas, as primas das minhas amigas e achava estranho a minha prima ter três irmãos homens e eu não ter nenhum. Eu achava estranho meus primos homens. Eu achava hiper mega absurdo alguém beijando na boca em público. Eu lembro de uma vez ter visto uma menina beijando na boca de um menino no colégio. Eu me lembro como eu achei aquilo estranho, como aquilo me chocou e como eu gravei essa cena da minha memória, estranho. Na pré-adolescência eu comecei a achar meu corpo ainda mais estranho. E achava mais estranho ainda como as minhas amigas se referiam aos meninos e como eu não dava a mínima para eles. Nesta fase eu achava estranho ter franjinha e raspei a minha para ter a sensação de cabelo inteiro (e adulto!) como os das minhas irmãs, logicamente eu me senti a mais estranha de todas depois que eu vi que o cabelo crescia e que, pior, ainda ficaria com um cotoco de franja por longos meses. Também achava minha sobrancelha estranha e de ter raspado com gilete na esperança de que ela ficasse novamente igual a das minhas irmãs: adultas e perfeitas. À medida que eu fui crescendo ser estranho foi tomando dimensões ainda maiores. Eu fui a última das minhas amigas a dar o primeiro beijo. E eu tenho certeza de que eu fui a que mais achou estranho, nojento, sem graça e com cara de “então é só isso?”. Aí eu me senti estranha por que na segunda-feira, na escola, o menino que tinha me apresentado o tal beijo na boca mal olhou para minha cara e eu comecei a achar que não só aquela cena toda era estranha, como o meu beijo era estranho. Aí neste mesmo ano eu achei estranho ficar menstruada, passei dois anos achando estranho usar absorvente e mais uma vez: o tal do corpo, sem curvas, sem peitos grandes, sem pernas de Sheila Carvalho e totalmente fora do estereótipo de sucesso das meninas do colégio, nos anos 90, o tal do corpo me fez sentir estranha novamente. Eu acho que nestes vinte e sete anos eu me senti mais estranha que normal. E lembro de até o final dos anos 90 ter buscado deixar de ser estranha e ser igual a todo mundo. Depois uma super dose de auto-estima chamada Amor fez com que eu achasse legal justamente o contrário: ser estranha. Ser diferente é o maior barato e tira o tédio da repetição, da multiplicação, do comum a todos.

7 thoughts on “Hello, Stranger – Parte 1 – Da Infância à Pré Adolescência”

  1. Hahahaha. Amei seu texto. Como é bom amadurecer e descobrir que o bom mesmo é ser estranha! Descobrir isso através do AMOR é melhor ainda! 😉

  2. Com certeza Rita! Ser estranha foge desse sistema de meninas alienadas nesse mundo! Adorei a coleção, a história, me identifiquei bastante! Vou acompanhar tudo tudo, bj *-*

  3. Me vi. Principalmente o fato de ter sido a mais magra da minha turma, a última a dar o primeiro beijo, não gostar das músicas que todo mundo gostava e pq o amor me mostrou ser A Estranha mais feliz do mundo.

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