Sobre moda e seu papel na sociedade.

Uma das falas mais interessantes que ouvi nos últimos dias foi o discurso da professora Polyana Molina (@pollyanamolina) enquanto paraninfa da última turma de Design de Moda formada no Piauí pela Uninovafapi (instituição que dou aula). Amei tanto as palavras dela que pedi para publicar alguns trechos no meu blog.

Poly, obrigada por expressar tão bem a moda para as pessoas que não sabem o que ela significa.

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“Começo abordando uma inquietação, um questionamento constante…  partindo daquela máxima, que é comum se falar ou ouvir de que: O CORPO é a MORADA ou a ROUPA da ALMA, pergunto: ‘ENTÃO… DO QUE VOCÊ SE VESTE?’

Eu lhes digo: Vestimos muito mais que roupas e acessórios! VESTIMOS UM TEMPO, uma CULTURA, e devemos nos vestir, principalmente, de NÓS MESMO!!

E é por isso, que é PRECISO estudar esse vasto campo de atuação e SIM, de CONHECIMENTO, que é a moda … Isso mesmo, estudar.

Fácil é não levar esse assunto à sério. Sinto pena quando pessoas fazem a famosa pergunta: O que se tanto estuda nos cursos de moda?

Parece mais fácil relegar a moda ao supérfluo.

Será mesmo que é tão difícil de enxergar o vasto campo que envolve essa área? Não parece obvio que envolva, entre outras, as áreas de Economia, Antropologia, Sociologia e Comunicação?

E ainda parece, que só assim a moda ganha mais dignidade e credibilidade.

Thomas Carlyle*, uma vez disse: ‘tudo quanto existe, tudo que representa Espírito para Espírito, é propriamente uma Roupa, um Traje ou Vestimenta’ (…) Assim, nesse importante assunto das roupas, devidamente compreendido, inclui-se TUDO que o homem PENSOU, SONHOU, FEZ e FOI: todo o UNIVERSO exterior e que o que ele CONTÉM é senão VESTIMENTA; e a essência de toda Ciência reside na FILOSOFIA DAS ROUPAS.

Moda é um FENÔMENO do campo cultural! Têm significado, é representativo, é dinâmico, constante, têm memoria, ajuda a contar nossa história do presente para o passado, e também do passado para o futuro. É um fenômeno da nossa EXISTÊNCIA enquanto HUMANOS … e do TEMPO!

Essa aparente superficialidade acontece porque conhecemos a MODA pela projeção de uma IMAGEM SINTÉTICA, geralmente simplificada, por uma máquina. Máquina essa que tem, para esse assunto, ainda poucas lentes. A mídia. Conhecemos a moda através das lentes que ela possui, que não nos permite ver além do estético no prisma do certo e errado, bonito e feio… ainda bem, graças aos cursos e pesquisas, que isso vêm mudando…

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Vocês passaram semestres estudando para ajudar a ajustar essa viciada forma de exposição. É só variar a lente, e então, é possível enxergar com mais clareza e maior extensão : A vestimenta tem história tão antiga quanto o próprio homem, o seu processo passou do puramente manual e oficinal para o industrial. É resultado do SABER, e do FAZER. É necessário criação e planejamento, envolve trabalho intelectual e técnico, e ainda, promove a ideia básica de movimento de mercado : demanda e oferta : DESEJO e NECESSIDADE.

Essas muitas facetas é que dão margem aos estudos, ao entendimento de um processo social de consumo, de um processo social de construção de identidade. Pois sim, a roupa nos conta seriamente sobre isso.

A partir de agora vocês terão a vida toda, profissional, para exercitar a linguagem da IMAGEM de MODA que possa ser RELEVANTE.

Saibam… entendam, se não for RELEVANTE… Não vale. É inócuo. É sem sentido. É incompleto.

E se for sem sentido e incompleto, nos coloca diante de uma questão ainda maior: Gastamos tempo precioso em algo que não funciona … e TODOS PERDEM.

Daí entendemos que o TEMPO têm um movimento preciso! E a MODA, expressa isso com PROPRIEDADE!

Por isso essa eterna urgência. Parece que a moda é sempre vanguarda, mesmo quando é vintage.  É do final do século XIX e inicio do XX, os primeiros pensamentos sobre a moda no mundo capitalista e industrializado, a teoria da distinção social – vista como canal de ostentação do poder econômico das elites. Ainda hoje a moda é utilizada como prisma para o entendimento das bordas sociais.

É comum, ser pela roupa, que podemos classificar o que é válido ou não. A roupa tornou-se mecanismo dos esteriótipos. Com a pergunta ou a sentença do é fashion. Assim mesmo, no inglês. Fica mais bonito. É fashion.

No entanto a moda precisa de movimento, de circulação. Ela até pode começar em um pequeno grupo, mas precisa do movimento para tornar-se legítima. É na rua que ela existe. Na rua, vai do luxo ao lixo. O tanto de informação que a moda carrega, do consumo de bens ao consumo do simbólico.

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A importância social e econômica desse setor segue firme no século XXI. Nas palavras de Diane Crane*, ‘reconstruir as mudanças na natureza da moda (…) é um modo de entender as diferenças entre o tipo de sociedade que está lentamente emergindo’, e esse movimento é continuo e aparentemente cíclico.

É desse movimento que a indústria se alimenta para oferecer produtos de moda que personificam os ideais e valores de uma época e que espelham através das escolhas desses vestuários, os diversos grupos sociais.

É assim que usamos a moda como equivalente aos valores dominantes de uma época. Moda é ao mesmo tempo atemporal e temporal.

Então me atrevo a dizer: NÃO VENDAM FANTASMAS.

Mas sim, espalhem BENEFÍCIOS.

Pensem nisso quando forem VESTIR seu tempo. PENSEM. PENSAR NÃO É PERDA DE TEMPO.

E cada vez mais nesse mundo acredito que precisamos de pessoas que estejam dispostas a PENSAR. Que encontrem SOLUÇÕES. Que propiciem EXPERIÊNCIAS. Que PENSEM e que SINTAM.

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A vestimenta ajuda CONSTRUIR e EXPRESSAR nossas próprias VERDADES. Isso é um exercício diário e continuo, e necessário. E vai afetar diretamente sobre nossas AÇÕES, profissionais e pessoais.

(…) Hoje, DIGO a vocês, se EXPRESSEM VESTINDO-SE do seu melhor! SE VISTAM do MELHOR … no sentido, de serem INTEIROS, ÍNTEGROS, ÉTICOS, COERENTES, GENEROSOS … tenham IDENTIDADE PRÓPRIA, VONTADE e ACREDITEM!

Saibam que o que produzirem sera forma de expressão para os outros! NÃO ALIMENTEM FANTASMAS. Escolher aquilo que será grande, que terá peso, que te guiará, sempre será e te fará RELEVANTE.

Não se limitem às lentes difusas, no superficial do VESTIR. A IMAGEM, sempre é MAIOR e mais PROFUNDA do que aparenta ser.

Não tenho a pretensão de dizer a vocês o que deve e não deve ser IMPORTANTE em vossas vidas. Tenho comigo só a intenção de conduzir um raciocínio. O pensamento de que, NÃO VENDENDO FANTASMAS, NÃO ALIMENTANDO FANTASMAS, NÃO CONSTRUINDO suas VIDAS BASEADAS EM FANTASIAS E ILUSÕES midiáticas, seguirão por um caminho mais simples e VERDADEIRO, com maior chance de sucesso, prosperidade, e principalmente, a REAL FELICIDADE.

Porque no fim, digo a vocês : acredito que, SOMOS aquilo que SOMOS. No profundo do SER… no fundo dos olhos. Acredito que não somos EMPREGO, mas sim COMO trabalhamos. Não somos o que POSSUÍMOS, mas sim COMO usufruímos. Não somos diploma, mas sim o que SABEMOS e principalmente o que, e como, FAZEMOS.

E SER na verdade, já basta.

Mais uma vez, SE VISTAM DO SEU MELHOR! De DENTRO pra FORA! Isso é duradouro e legítimo! E sempre, mais BELO!

Meu DESEJO para vocês, na verdade é muito simples (…)

SEJAM INTEIROS. ESTEJAM DISPOSTOS. TENHAM COMPROMISSO e SE REALIZEM!

(…)

DESEJO acima de TUDO, que suas melhores ROUPAS sejam EXPRESSÃO do melhor de vossos ESPÍRITOS.”

* Thomas Carlyle (1795-1881) foi um historiador inglês da Era Vitoriana, publicou “História da Revolução Francesa”, um marco para a literatura romântica.

* Diane Crane é uma socióloga americana da atualidade e a autora do livro: “A Moda e Seu Papel Social – Classe, Gênero e Identidade Das Roupas”, que trata da história social da roupa. Através de suas pesquisas demonstra como sua função da roupa, de indicar status social, foi gradativamente alterada, nas sociedades contemporâneas, para a de fator de construção da identidade do indivíduo, mediante sua correspondência com valores que cada pessoa escolhe cultivar.

ph: Steven Meisel para Vogue Itália | Julho | 2012

Assinatura Rita.

Sobre roupas, modas e afins.

Fazer roupas tem sido meu ofício desde 2007. Num dia quente do mês de setembro decidi que iria passar o resto da minha vida vestindo as pessoas. Nesse meio tempo já estudei sobre as mais diversas vertentes dessa escolha, tentando entender e justificá-la para mim e para o mundo. Não satisfeita em só fazer as roupas eu busquei compreendê-las. Por que elas foram criadas? Por que elas estão sempre sendo modificadas?  Por que mesmo não estando mais na Pré-História, imbuímos na roupa um caráter protetor (como se ela fosse nos proteger das intempéries da vida moderna)? Protegemo-nos com nossas roupas. Protegemo-nos do julgo sobre elas. Nos divertimos com os recortes, enfrentamos o predador espelho. Na teoria da moda, muitos caras tentam explicar o caráter social da roupa. Caras como um francês que eu gosto muito, vêm falar sobre o surgimento da moda e me persuadir que a moda e a roupa nem sempre andaram juntas. E não andam. Costumo dizer para as minhas clientes que eu faço roupa. Estou dentro de uma cadeia industrial de moda que me permite que eu crie, execute, divulgue e venda a minha roupa. Não quer dizer que eu esteja girando na ciranda da moda. Minhas referências podem vir de modas de outras épocas, das roupas que eram usadas, de tecidos ou de um modo de ser que não necessariamente condiz com o que estamos buscando agora. O que estamos buscando agora é, no meio da moda, chamado de tendência. De tempos em tempos (e tempos cada vez mais curtos) esses conceitos de beleza, comportamento e bem vestir se alteram. Às vezes eles vão e vêm com tanta rapidez que a gente ainda nem doou aquela peça considerada “fora de moda”. Tenho um apego extremo a todas as peças feitas por mim nesses oito anos como designer de moda. Tenho um orgulho gigante quando alguma cliente diz que ainda usa uma peça minha de cinco anos atrás. Tenho muita sorte de ter sobrevivido à instabilidade do comércio e de ter me segurado forte a cada achocalhada fashion. Minhas roupas me protegem. Minhas roupas me perpetuam.  Elas me espalham no tempo e espaço. A cada cliente que olha, deseja e leva alguma criação minha, é como se nos duas tivéssemos estabelecido uma relação de sintonia. Daí essas coisas (as roupas) passam a ser símbolos dessa relação, dessa sintonia, dessa identificação que eu chamo de Amor. Amo o que eu faço por que é um trabalho infinito. Ele dura mais do que os cinco ou sete anos que a cliente me guarda no armário, ele dura todas as lembranças de felicidade e prazer das horas em que mesmo, sem saber, estivemos juntas.

Camisa, Calça & Short Madeline ♥ Novidades no Atelier

 

Camisa e Short Madeline.

 

 

♥ CamisaCalça Madeline.

 

 

Essa estampa de lenço, carinhosamente chamada de baroque, faz menção ao período artístico Barroco, marcado pela exuberância, pelo rebuscamento das formas e  dinamismo, isso lá nos idos de 1600. Inclusive pude conferir uma exposição de um grandes nomes do Barroco, o Caravaggio (assunto para o próximo post!). E como os encontros entre arte e moda acontecem de antes da Chanel vestir o Ballet Russo, volta e meia, aparecem tendências como esta. Nos anos 90, Gianni Versace pintou e bordou com o barroco em estampas que consagram a marca. Recentemente, em parceria com H&M, as famosas “estampas de lenço”, começaram a voltar de forma mais acessível e em tecidos além dos nobres. Para nossa alegria!

 

 

 

 

 

 

Essas foram algumas referências do estilo barroco transposto na moda para vocês. Aguardem as nossas próximas estampas barrocas. Ah, e o nome Madeline faz referência a personagem de Meryl Streep em “A Morte Lhe Cai Bem” (Death Becomes Her) um filme de 1992, cujas imagens cheias de cores e formas lembram o estilo que descrevemos neste post. Vale a pena assistir e se divertir com esse clássico dos anos 90.

 

 

P.S.: Só lembrando que esse não se trata de um filme que retrate a estética barroca, mas vou indicá-los noutros posts.